Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Barranqueando a Bezerra

Por Carlos Giordano Jr.

Na sua casa ali na beira do rio, ele foi contando...

-Lembra do Antenor Fulano?

O causo é que o tal Antenor, filho de um funcionário da Sucrerie, a Companhia Francesa proprietária do velho Engenho Central de Piracicaba, gostava de fazer suas farras junto com a turma do Tiro de Guerra.

No auge de seus vigorosos dezoito anos, Antenor e os amigos saiam para paquerar as meninas da já conhecida e encantadora Rua do Porto. De papo em papo, tomavam umas e outras e logo começavam a fazer algazarra, o que acabava incomodando os moradores ribeirinhos.

- Ô Zé! Ocê num viu seu fio ontem ali na cocheira?

- Vi não. Revoltado com a pergunta, negava se defendendo o velho funcionário.

Revoltado porque naquela época, era comum a turma da pesada, passar o final da noite barranqueando as bezerras da cocheira do Engenho do outro lado do Rio. E seu filho era um deles. Sempre negando e contrariando debaixo dos tapas na cabeça, os ensinamentos do pai.

À noitinha, a turma esperava a bezerrada se amansar e amarrava então suas patas com o cinto do Tiro de Guerra que era ótimo pra isso, segundo consta, pois tinha vários furos onde se podia travar a fivela. Feito isso, mandavam ver nas coitadas. Uma verdadeira festa.

Para piorar, às vezes, passava por lá o próprio, aquele, o tal funcionário encarregado justamente do trato dos animais, pai de Antenor. Saía no grito com a molecada, prometendo mandar bala de cartucheira pra espantar aqueles verdadeiros demônios. Seu medo era um só... Um dia, ter a certeza de encontrar o Antenor por ali.

Dito e feito.

Numa noite de calor, a lua riscava o remanso do rio, oferecendo uma iluminação além do normal. Seu Zé ficou na espreita, alongado no mato, engatilhado, só esperando. A molecada chegou fazendo arruaça e logo laçando as patas das bezerras com o tal cinturão. Calça pra baixo, tiro pra cima e pernas pra que te quero... Maior correria.

No dia seguinte, Seu Zé limpando o curral, encontrou nada mais nada menos do que o tal cinto enlameado no meio do estrume. Que sorte. O sargento foi avisado e...

- Vista fina no soldado sem cinto! É o que sugeriu o Capitão.

-Agora pegamos o malvado. Resmungava o fiel funcionário.

Na fila indiana, na hora da vistoria da tropa...

- Nenhum cinto faltando, Capitão. Bradou o sargento em alto e bom som.

A turma passou mais de um mês alternando e emprestando o cinto daquele que obrigatoriamente deveria faltar para não entregar o colega. E o Antenor, dono do cinto, nunca foi pego.

Abraço pro amigo Orlando Louvadini, grande cozinheiro e contador de causos.

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