Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Margô, a mulher com pinto

Carlos Giordano Jr.
Depois disso ninguém acreditaria em mais nada.
Quando nasceu, Margarida fôra o nome que recebera de seu pai, numa tentativa quase dantesca de retratar o impossível, estampando na menina a meiguice de uma flor.
Os anos se passaram. Seu pai, desapontado com o resultado de tanta luta em vão, teimando em transformar seu estranho comportamento másculo perante seus amigos, expulsou a promissora Margô de casa, que da pequenina flor que era, nessas alturas, já tinha restado somente o talo. Margô foi à luta. Logo arranjou um biscate de servente de pedreiro numa obra do Metrô da Capital. Dava duro durante o dia, suava a camisa como qualquer peão. Batalhava a coitada, e olha lá do safado que bolinasse Margô. Não tinha pra ninguém, saia na pancada com qualquer um exigindo respeito. Com esse seu jeito, vivia sempre só.
Um dia, tentou arranjar namorada. Não deu, faltou “algo” no relacionamento. Infeliz, Margô quis acabar com tudo se atirando no Tietê. Não conseguiu afundar. Boiou lá na frente e foi retirada do lodo por uma viatura do Corpo de Bombeiros. No pronto-socorro, que de pronto só tinha o nome, Margô fez amizade com uma tal do seu tipo, que já mais amadurecida na idéia, usando sapatos maiores, lhe aliviou o sofrimento ensinando-lhe algumas fórmulas de auto-aceitação e reconhecimento do amor próprio. Ficou sabendo que havia uma tal revolução sexual, onde homens queriam usar saias e mulheres das mais cobiçadas já estavam usando cuecas, tudo isso com o aval da sociedade e dos meios de comunicação, pois vira confirmada a estória num acreditado programa dominical de televisão.
Margô teve alta médica. Saiu do Hospital toda mudada, diferente, capaz de tudo. Num impulso de tentar ver seus valores reconhecidos pelos seus colegas de trabalho, não teve dúvidas, passou numa loja de animais domésticos e comprou um pintinho.
-“Se podem usar cuecas, por que não posso ter meu próprio pinto”.Pensava a pobre e ignorante Margô.
Na obra foi logo apelidada de “A mulher com pinto”... Não se importando com o apelido, sempre tratou bem do bichinho. Andava pra cima e pra baixo com o pintinho, sempre, logicamente escondido dentro de sua cueca nova.
Margô era autêntica, e o principal é que estava em cima da moda. Logo foi invejada no bairro. Todas queriam ter um igual...Nunca se vendera tantos pintinhos como então.
Por sua iniciativa, Margô virou capa de revista, ficou famosa e fizeram até um “Clip” com ela naquele programa dominical da tevê. Que virada!!! Ah! Como Margô era feliz... Se seu pai soubesse, a chamaria de volta com os braços abertos.
Margô ganhou bastante dinheiro com publicidades, comprou carro importado, casa grande com piscina, mas se esqueceu daquele que com o tempo se transformara num tremendo galo com crista e esporas.
Um dia, gravando um comercial de televisão, o galo resolveu cantar ainda de dentro da cueca...có-có-ró-có!!! Margô, desesperada deu-lhe uma porrada, e o pobre galo, na defensiva, cravou-lhe as esporas na virilha. E, como o bichinho não se acalmava, resolveu enfiá-lo no primeiro buraco que encontrou...
O buraco estava contaminado!
O galo, que não pediu pra entrar, morreu tentando sair...
Margô, que já tinha perdido o pinto, morreu de infecção na vagina.
O dono da granja ficou rico com as doações de frango que recebera.

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