Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Tempo de despertar

Por Carlos Giordano Jr.

O ônibus passava às 12h30’,e lá eu ia, todo contente com meu violão vermelho tamanho king-sise, rumo à escola de música. Um dia, sentei-me ao lado de uma velhinha, coitada, toda enrugadinha, de lenço na cabeça, vestido puído, cheirando a naftalina de armário que pega umidade no porão da casa de fundos da vila da rua sem saída. Dentadura sim, em cima, dentadura não em baixo, boca murcha, chupada. Velhinha feia mesmo, toda acabadinha.

- Dá licença, vó? -

Faça-o-avor! Respondeu a murchinha. Era educada ela.

Quando me sentei, delicadamente esbarrei-me num saco de papel todo amassado que a anciã levava consigo sobre as pernas tomadas de varizes. O pacote caiu aos meus pés, derrubando alguns embrulhos que se espalharam debaixo dos bancos do circular. Atenciosamente, como fôra educado, tomei a iniciativa de reparar o meu erro, juntando todos os pacotes e colocando-os de volta no saco, devolvi-o à velhinha que mascava nada na boca, esperando uma atitude do mocinho.

- Desculpe, vó. Foi sem querer.

- Foi nada não, fio!

O circular continuou sua jornada, e a velha juntando saliva com sua mascada incessante. Em frente ao Sud Mennucci, fim do período, ponto cheio. As portas do coletivo se abrem e a moçada toda se pincha pra dentro ocupando todos os centímetros quadrados, fazendo a maior estrepolia. Garotas bonitas, de saínhas curtas, quase que mostrando as calcinhas àqueles que, curiosos, derrubavam coisas ao chão para que ao catá-las pudessem aumentar, dessa forma, seu ângulo de visão. De repente, a velha, conferindo seu pacote, exclama:

- Roubaram, roubaram...não é possível, roubaram!!!

- O que, dona?

- Roubaram meu pacotinho!

- Calma vó, calma.

- Calma coisa nenhuma, roubaram... roubaram meu pacotinho! E, pensa que parou aí? A enrugadinha emendou, já a fortes brados, chamando a atenção de todos:

- Foi ele, foi esse aqui! Referindo-se a mim, me enfiando seu dedo todo tortinho na minha cara de jovem enrubescida de vergonha e de pavor.

- Qué isso, dona, eeeuuu? Fale baixo, vó, por favor... - Ele me roubou, porque sou uma pobre velhinha desamparada. E, quem vai acreditar em mim?

- Pare dona, pelo amor de Deus! Eu não peguei nada, não senhora.

- Socorro, motorista, pega ladrão, pega!!!

O alvoroço se formou. A velha gritando. A moçada agitada, já querendo ver meu sangue jorrando de meu corpo quente, escorrendo pelos degraus da porta da frente, rumo ao necrotério. Puta brecada! Ajeitou a carga. E, o motorista grita lá da frente:

- Devolve o embrulho aí, meu. Senão cê vai se dar mau!

- Não peguei, tio, pela-mor-de-Deus, não peguei. Pode revistar. E a velha:

- Ele deve ter passado pra alguém. É isso, só pode ser isso.

- Por favor, mi’a senhora, não peguei, juro que não. O zurugundum comendo. Eu desesperado. O povão querendo ver sangue. A velha já ia perder a dentadura de tanto gritar, quando o motorista, muito nervoso gritou: - Ninguém sai, ninguém entra. Vamos lá pra baixo (expressão muito popular designando a ida até a delegacia). Juro que me senti o próprio pivete, trombadinha, pé de chinelo, ladrão de melancia. Pensei na minha mãe, no meu pai, nos meus amigos indo me visitar na cadeia. O coletivo se aproximava da delegacia, o pavor aumentava, a velha ainda estava com a dentadura no lugar, a moçada me olhando com reprovação de assaltante de velhinhas desamparadas.

A uma quadra do destino, do doutor, das grades, do vexame, das surras, a anciã desesperada anunciou:

- Ai, moço, foi engano, desculpe! O pacotinho tava no meio das minhas pernas, me desculpe. E, emendou:

- Motorista, me desculpe, foi engano, foi engano, Nossa Senhora Aparecida! - Pela-mor-de-Deus, vó a siora me mata de susto e de vergonha. Nunca mais faça isso, nunca mais faça isso.

- Ói moço, não sei como reparar meu engano.

- Tem nada não, dona. Puxei a cordinha, e quando ia saindo do coletivo a velhinha me segurando pelos braços, entregou-me um pacotinho e disse-me:

- Olha, filho, esse é um pequeno presente que te dou na tentativa de reparar o meu erro, e depois de abri-lo, toda vez que olhar para ele se lembrará de mim te pedindo desculpas.

- Tá bom então.

Embora sabendo que, conforme orientação de minha mãe, não deveria aceitar presente de pessoas estranhas, peguei o embrulho e saltei. No caminho do ponto até a sala de aula, a curiosidade foi aumentando a tal ponto que não pude mais agüentar e apressadamente fui abrindo o pacotinho... E, para minha surpresa, acreditem, era um bonito relógio despertador, todo folhado a ouro, com mostrador em porcelana, e ponteiros também dourados. Estava parado. Dei cordas e ele soou...soou sem parar, até que acabei por acordar e descobrir que tudo não passara de um grande e agitado sonho.

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