Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Uma história de amor

Por Carlos Giordano Jr.

José era um sonhador. Quando conheceu Candinha, teve a certeza que sua espera acabara. Seu sorriso encantadoramente cativante conquistara seu coração.

Nos olhos daquela que seria a grande paixão de sua vida, pôde encontrar a ternura e o brilho que iluminaria seu viver. Seguro, seus dias não seriam mais os mesmos. Agora sabia que o amor de verdade podia existir. Quisera ele, num encanto, imaginar ser possível encontrar alguém a quem pudesse sentir um amor assim tão edificante, puro como a bruma, doce como é doce o mais doce mel e que esse alguém também o amasse como nas poesias e nos contos, cuja demonstração de carinho, pudesse ser o combustível para fazer pulsar de novo a motivação do seu querer. Esse encanto ficaria para sempre morando no seu peito. Viveria por ele. Morreria para que ele não morresse jamais.

José conheceu Candinha às vésperas de uma grande festa. Entristecido pela morte de seu Pai, ergueu-se ao vê-la, como se ergue das profundezas irreais de um abismo cruel, buscando naquela, a alegria de poder viver sem o choro contido. Mostrando-se como um tolo, endereçou olhares de galanteio para aquela pequena flor, cheia de vida, que emanava ao vento seus perfumes de prazer que, coitado, acreditava serem só dele.

Como num sonho, mas de fato, aquilo não podia ser real. Sua suspeita não poderia ser palpável, porém Candinha o recebera com gestos de bem querer. Uma frase, um aceno e finalmente um sorriso. Aquele. Sempre.

Despertando então para o amor, seus corações se uniram numa aliança de paixão que deixariam transparecer a quem quisesse ver, a forma divina da manifestação suprema de ser feliz. O casamento veio em seguida. A família, fôra presenteada por frutos maravilhosos colhidos daquela árvore de amor. Eram três, lindos. Mais felicidade seria intolerável. Não poderia ser tanta só para eles. Deus os teria escolhido para serem tão dignos de tudo isso?

Por acreditar sempre no poder da gratidão, José, voltando-se ao Pai Celeste, curvava-se em reverência agradecendo-O por tudo e pedindo com receio que nunca o libertasse dessa imensa ilha de felicidade.

O tempo passou. As crianças foram crescendo, e a luta constante envelhecera o semblante de José. Seu cabelo brilhava como neve ao Sol, pois a lida com a vida o tornara mais severo, exigente e intranqüilo quanto ao futuro daquela família.

O mundo exigia mais e mais. Os filhos, inquietados por tanto querer, seguiam pedindo mais satisfação do que felicidade. E a matéria teve lugar naquilo que até então, se mostrara Divino.

O coração de ambos virara pensamento. E as dúvidas quanto aquele amor, já eram escritas nas areias do desafeto. Aquele sorriso cativante de Candinha cedera lugar a um novo olhar, agora distante e triste. A insatisfação entrou pelos vãos dos dedos calejados pela luta com a enxada, e José não conseguiu fazê-la compreender que o amor estava por um fio. O que era afeto estava se tornando mágoas. Seus beijos outrora molhados por seus lábios febris eram frios e duros como gelo. E Candinha aos poucos se foi... Deixando-os sós com seu corpo, sem sua alma.

Quanto sofrer, quanta dor.

-Porque Senhor nos tirastes nosso chão? Bradava José... Que mal pôde ter feito a Ti para condená-lo à tristeza de ver seu amor um dia partir?

Aos prantos pedia a Deus que o abençoasse rogando por Sua imensa Graça, permitindo a ele, voltar a viver aquilo que o mantivera vivo um dia. E Candinha, cega na alma, deixou que seu corpo e seu pensamento tentassem abrandar sua dor, buscando algo que ainda não conhecia. Levada pela escuridão, procurou depositar seu afeto em outro amor. Havia deixado para trás tudo o que tivera, inclusive sua própria identidade e principalmente sua dignidade.

Mas José ainda a amava. Sempre a amou. Incansavelmente. Com a pureza que lhe restava.... A amou. Pediu que voltasse ao mundo real. E, Candinha não respondeu. Simplesmente o deixou.

Desgastado pela dor, José ficara com os frutos daquele amor, para dar-te o conforto por tê-lo vivido com tanta intensidade e para sofrerem juntos, a agonia daquela ausência. Quanto sofrer.

José alimentava seus filhos com a esperança de que um dia Candinha abriria de novo seu imenso coração, recebendo a todos para morar novamente em seu seio. Presentearia a todos com seu amor, com seu carinho, com seu afeto inegável e com aquele sorriso que se apagara na infidelidade.

Talvez tivesse sido seu erro, amar demais, abafando a sua amada com o desejo de fazê-la feliz. Candinha poderia ser mais feliz do que tivera sido? Seria desumano. Mas a idéia do novo amor não teve reflexo no espelho da emoção. Aquilo que estava vivendo não era de fato o que sonhara. Afinal, o que mesmo estava sonhando? Queria ser satisfeita, mas não feliz. Esse foi seu erro. A felicidade só tem moradia no coração. Cada qual tem sua chave. Basta girar e permitir. Felicidade é amor. Deus é amor. Pureza, entrega, cumplicidade, afeto, carinho, fidelidade e devoção, isso sim é que é o verdadeiro exercício de amor.

José, sempre inconformado, mas ainda um verdadeiro sonhador, procurava em Deus a resposta para sua ação. E decidiu ir buscá-la. Sua busca foi quase insana. Por meses seguiu a procurá-la.

Onde estaria sua amada? Estaria ela feliz? E se ao encontrá-la, a visse com outro amor, qual seria sua reação? José ficou então com muito medo. Não sabia como responder aos seus inconstantes momentos de dúvidas. Afinal qual seria a única certeza que teria se a encontrasse? Claro que, se ao encontrá-la nos braços de outro amor, poderia desejar a própria morte, mas seu amor era maior que sua consciência e assim continuava com sua procura.

Só conseguiu perder a razão quando a viu coberta por uma névoa de pecado. Sim, ela tinha dedicado seu coração a outro amor. Como pudera ter feito isso sendo ainda casada com José? Não, não era ela. Não poderia ser ela. Isso seria loucura, pensou o pobre desolado.

José sentiu-se traído, pois seu coração estava entregue à ela, só à ela. Sentiu-se a beira da morte. Seu coração bateu sem ritmo distribuindo toxinas pelo corpo ensandecido de tanta dor. A angústia de poder vê-la assim o levou a pensar que seu fim estaria próximo. Mas, mesmo com uma dor horrível em seu peito, não desistiu. Chamando-a de volta, como quem chamara antes a volta do Pai já morto, não encontrou seu ouvido. Seu coração virara pedra. Fingia não vê-lo. Simplesmente o ignorou.

A vida de Candinha estava em ruínas e ainda assim não podia ver. Daquele abismo que encontrara José, agora Candinha tirava seu sofrer. Aquele amor, que pensava estar sentindo, também não fôra correspondido. Sem alicerce, seu castelo de desejo e satisfação não consumado, a transformara novamente em mulher triste. E a dor dessa tristeza agora poderia salva-la. Bastava que abrisse seu coração novamente para o verdadeiro amor. José lhe pediu que tentasse e mais uma vez ela não conseguiu.

Pensando em não fazê-lo sofrer mais, negou aquele envolvimento até não mais poder. A cada negativa de encarar a dura realidade, mais o fazia sofrer. Quanta dor desnecessária.

Quando José a trouxe de volta, a vida seria outra.

Seu amor e seu perdão foram as armas usadas para resgatá-la daquele inferno em que se metera.

Hoje, o amor voltou a morar junto daquela família, simplesmente permitindo serem todos felizes novamente.

Dia após dia, somente.

Até quando Deus permitir.

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