Por Carlos Giordano Jr.

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sábado, 1 de dezembro de 2007

Hoje simplesmente acordei cego

Por Carlos Giordano Jr.

Verão de 2006

Percebi que tinha acordado quando senti minha consciência ativa através dos meus ouvidos. Abri os olhos e nada vi. Minha memória não conseguia buscar imagens para que eu pudesse visualizá-las diminuindo meu desconforto.
Hoje acordei cego. Tenho dificuldades para levantar-me da cama. Gritei por ajuda e todos se foram. Estou só, no escuro total.
Levantei-me com dificuldade, tateando a parede na busca do interruptor de luz na esperança de que algo tivesse acontecido durante a noite e num piscar de olhos tudo pudesse voltar ao normal. Mas infelizmente nada aconteceu. Tive dúvidas, gritei por ajuda novamente e percebi minha cruel realidade à luz da minha escuridão.
Como pode haver luz na escuridão? Acho que nunca vi a luz. Não me lembro.
Fui ao chuveiro, tocando nas paredes, e me banhei como de costume. O sabonete caiu e não pude achá-lo. Desisti do banho e a toalha não estava onde deveria estar. Também não pude achá-la. Sequei-me com o tapete do chão. O telefone tocou ao meu lado no quarto, consegui apalpá-lo, quando minha esposa preocupada, perguntou se tudo estava bem. Disse que sim, embora confuso. Ela contou que a professora de Braille não viria, pois a ONG que a contratara, estava sem recursos para mantê-la na função. Desculpando-se, desligou o telefone me deixando mais intranqüilo.
Definitivamente eu era cego. Troquei-me com dificuldade, colocando a roupa que cuidadosamente ela tinha separado em cima da cadeira do quarto. Ao lado, minha bengala. Que dor senti nesta manhã.
Até a cozinha para o café já preparado, foi fácil, não havia nada no caminho. Alimentei-me sentindo que formigas comiam parte do meu pão, mas não consegui saber quantas ingeri.
Resolvi dar um passeio e percebi que as pessoas passavam por mim quase sem respirar, com medo de que pedisse ajuda. Foi muito difícil e doloroso chegar à porta do prédio, pois já no elevador, que apita quando chega ao meu andar, notei a presença de alguém que não respondeu ao meu - Bom dia!
Na calçada, degraus dificultam meu caminhar mesmo com o auxílio da bengala. Mas não importa... Continuo como se fosse normal. Um carro em alta velocidade buzina e me xinga quando tentava atravessar a rua. Resolvi voltar.
Queria poder trabalhar, mas infelizmente, apesar da minha capacidade, apesar de falar várias línguas, de saber redigir minhas idéias com facilidade, ter excepcional audição, ótima coordenação motora e de ter boa concentração, não consigo uma empresa que me dê apoio ou oportunidade de trabalho mesmo com o incentivo ou exigência da lei federal.
Que tristeza me dá. Meus filhos estudando na Universidade e eu sem poder ajudá-los, inválido dentro de casa.
Num silêncio profundo, imaginei poder ligar a TV e assistir o noticiário. Por mais esforço que fiz em minha memória, não pude nem sequer imaginar como seria o rosto do repórter. Não tinha nenhuma imagem na minha mente. Não tinha lembranças visuais. Nunca havia podido ver a luz. Só escuridão. Assim mesmo liguei a TV para tentar ouvir então uma boa notícia e acertei...
A Campanha da Fraternidade deste ano convida a comunidade a participar da conscientização para valorização e inclusão das pessoas com deficiência. Acho que alguém, de fato lembrou de nós e resolveu dar uma mãozinha. Fiquei feliz em saber que a Igreja Católica estará empenhada em apoiar os projetos de conscientização da comunidade a favor dos portadores de deficiências através da CNBB e da Caritas.
Sentei-me ao computador e pude perceber que ele falava comigo através do programa DOSVOX instalado. E dei início a esse texto, ditando para o computador aquilo que eu queria escrever. Que maravilha. Pena que a maioria não tem esse recurso e fica isolado do mundo da informação.
E hoje resolvi mudar o mundo.
Vou fazer um projeto para ajudar uma ONG da minha cidade. Quero que eles se capacitem a ajudar mais e mais pessoas para o trabalho. Que tenham dinheiro suficiente para pagar as professoras, psicólogas e assistentes sociais que se escravizam para nos ajudar e não são reconhecidas. Quero que o dono do Pet Shop que está rico de vender bugigangas para bichinhos de estimação, possa contribuir para que pelo menos alguns cegos possam receber um cão guia e sustentá-lo com doações de ração. Vou visitar empresas e pedir que nos ajudem, dando oportunidade de trabalho para que possamos mostrar nosso valor como cidadãos. Vou aproveitar e fazer um projeto para a CNBB pedindo algum recurso do Fundo Nacional da Fraternidade. Vou ligar para o pessoal do Lions Clube que também se esforçam em viabilizar projetos de assistência a portadores de deficiência visual e vou pedir uma forcinha. Vou mandar um e-mail para a ONCE - Organización Nacional de Ciegos de Espanha, que recebeu do governo de lá a possibilidade de explorar a loteria federal e reverter o lucro para fomento de projetos de assistência aos cegos da Espanha e do mundo. Vou convidar todos os cegos que conheço para se levantarem e perceberem que existe vida longe da escuridão. Vou a Brasília pedir ao presidente que separe uma parte do valor que pretende gastar na sua campanha de re-eleição para fomentar Institutos, Federações, ONGs e Associações de ensino e capacitação de portadores de deficiências.
Espero que amanhã a luz se acenda como sempre, mas eu possa ver o mundo de outra forma, enxergando melhor a realidade da vida, encarando novos desafios e ajudando a todos que precisam de mim.
Amanhã o mundo será melhor. Pelo menos vou vê-lo assim.

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