Por Carlos Giordano Jr.

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Abrindo os olhos

Por Carlos Giordano Jr.

Os horizontes eram coloridos, mas ainda desconhecidos e se apresentavam à mim por amor e vontade de pessoas maravilhosas que se intitulavam professores. Aos poucos iam nos cativando com sua dedicação no convívio diário. Eram responsáveis na sua função. Aceitavam a idéia de que com muito esforço e dedicação a recompensa viria, qual seja a de, delineando nosso futuro, estariam assegurando ao mundo uma forte promessa de melhoria de vida.

Dona Arlete, Dona Terezinha Kraide, Dona Maria Bononi, Dona Dorairtes Vitti e Dona Lourdes Bonilha foram minhas ilustres professoras no início de minha jornada acadêmica. Me presentearam, e a elas sou eternamente grato, com a chave do Mundo. Me ensinaram as letras e os números. Sem isso, hoje não conseguiria sequer respirar. Estaria vegetando na ignorância, implodido na incapacidade de expressar qualquer opinião a cerca do mais imbecil assunto. Seria pobre, como é pobre o nosso rico e analfabeto País, que teve um dia, seus valores culturais contestados pela hipocrisia política daqueles que, com certeza, não se doaram ao interesse comum, pois não tiveram oportunidade de sequer aprenderem a ler e a escrever. Fizeram circo, distribuíram pão, desarticularam o sistema educacional, ocultaram o Sol, e se dissimularam sob a égide obscura do voto cego e podre.

Isso tudo só fortaleceu-me em desejo e esperança, pois estava nascendo em mim o impulso pela consciência crítica pura, despida de maldade, infantil ainda, mas soberana na razão. Não queria contestar, buscava somente o entendimento das coisas.

- Esse menino pergunta demais! Dizia Dna. Doraírtes.
- Como vou entender, se não perguntar?
- Tudo tem seu tempo. Tenha paciência.

De fato, tinha sede de conhecimento. Mas nunca fui aluno exemplar. Não gostava de fazer anotações. Queria guardar tudo na cabeça. Impossível.

Na escola fiz muitas amizades. Algumas se fortaleceram ao longo dos anos, se conservando até hoje calcadas pelo mútuo respeito, consideração e observância dos limites individuais.

Na pré-escola ou jardim da infância tive momentos inesquecíveis, que os tenho em fotos coloridas vivas na memória, no “Peixinho Vermelho”, depois no “Parque Infantil”.

Uma vez, fui salvo singrando as águas cristalinas da piscina sem saber nadar. Tinha deixado transparecer aí minha primeira atitude de rebeldia, queria virar peixe, fiquei roxo, quase virei limbo. Não fui expulso da escola porque Dona Mara, minha mãe, era professora, e porque eu ainda não conseguia me defender das acusações, pois ainda não sabia falar tudo o que já conhecia.

No “Parque” tudo era maravilhoso, havia muito respeito para com as professoras. Aprendíamos brincando. Comíamos Jataí com gosto e cheiro de chulé às sombras das centenárias Jatobás e Jequitibás. Corríamos do Seu Vicente, o jardineiro, e esperávamos ansiosos Dona Amélia nos trazer ovinhos de lagartixa para comer (na verdade eram amendoim japonês).

Havia muito espaço. Um corredor de hibiscos nos permitia brincarmos de narizinho com o miolo de sua graciosa flor. Caçávamos aranhas com linha e chicletes. Promovíamos brigas de saúvas, jogávamos fubeca, e a regra não permitia dar “ganso” para alcançar o “bile”.

A hora do lanche era esperada com certa ansiedade, pois serviam-nos pão com manteiga e leite em pó com chocolate da Merenda Escolar. Que delícia, ficávamos horas no banheiro, com diarréia. Não tinha privada para tanto. Era muito legal.

Dona Adele era a diretora, Dona Antonieta, Dona Tutu, Dona Edenice, entre outras com muita maestria nos ensaiavam para a grande quadrilha na Festa de São João. Como era gostosa a expectativa para a escolha do par. Impressionante como todas me queiram. Não sei se me confundiam com Robert Redford ou Nhô Quin.

Eu tinha uma botinha, que vinha com um escrito no cano: “Xerife”, ela me acompanhou muitos anos nessas festas. Meu pé nunca cresceu, ela quase o atrofiou.

Com o tempo virei “lobinho”, fiz juramento, aprendi muitas coisas que me serviriam mais tarde, como fazer fogo com dois pauzinhos , tapar goteira na barraca com chicletes, ficar sem dormir de medo de aranha e até cozinhar arroz com massa de tomate. Foi bom, quase virei escoteiro. Só não topei porque o lema era ficar “sempre alerta”, mas ninguém sabia porque. Se alguém ia chegar sem avisar para almoçar, ou se ia embora sem pagar.

Enfim, tudo passa deixando na pele o cheiro forte do suor que emana da vida, do movimento de ter vivido, de ter passado por ali, naquele momento, e sentido o prazer de poder senti-lo.

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