Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A cagada

Por Carlos Giordano Jr.

Em 1969 estava estudando em um dos melhores Institutos de Ensino do Estado. A estrutura física era incrível, pois dispúnhamos de salas de desenho, artes, ciências, biologia, biblioteca e teatro com piano onde recebíamos aulas de música, isso tudo por conta do desejo de ter em seus filhos a realização do objetivo educacional, elaborado pelo eficiente corpo docente daquela Instituição, qual seja o de preparar o aluno para sofrer menos na vida.

Nessa mesma época, embora muitos duvidassem, Neil Armstrong tinha ido dar um passeio na Lua, e eu aqui na Terra passeava tranqüilamente a caminho da escola. Morava na Treze de Maio, em frente ao “Paraíso das Cabras”, imenso terreno baldio, onde caprinos pastavam docemente, comendo restos da feira-livre do sábado. Naquele local também se instalava anualmente o Circo “Orlando Orfey”, para o delírio da garotada. A pé, descia a Treze de Maio, virava a Visconde do Rio Branco rumo ao Palmeirinhas, passava perto da casa da Olívia Carçuda, lá da família dos “polône”, onde desaguava o esgoto que vinha do Campo do XV, que fôra construído onde dantes houvera um lindo bosque silvestre, o qual era cortado por um bucólico fio d’água, que então canalizado por conta da construção do estádio, ia dar a céu aberto justamente na casa da Olívia, onde caçávamos guarú, com a intenção abominável de comê-los vivos para aprendermos a nadar. Era o folclore. E, seguia virando a Rua São José até a Alfredo Guedes, passando pela fábrica de balas “Beré”, depois, logo na esquina, um cheiro delicioso de café perfumava todo o bairro, cheiro este vindo da torrefação do famoso Café Morro Grande. E, antes de cortar caminho pela pracinha da Igreja Bom Jesus me deliciava com a possibilidade de ganhar uma bolacha de algum funcionário num dos vitrôs da fábrica Júpiter, que funcionava ali no largo, ao lado da fábrica de Macarrão Aurora, que era do mesmo dono. E, mais uma quadra, chegava no portão da Rua Bom Jesus já no Sud, aproximadamente quinze minutos depois de sair de casa. Na volta o mesmo percurso, só que com a barriga roncando de fome.

Às vezes meu Pai ia buscar-nos com seu DKW 1967, motor de dois tempos, fedendo óleo queimado…coisa muito boa. Levava uns dezesseis minutos de viagem para chegarmos em casa!

Mas, minha primeira experiência que me fez sentir o peso da vergonha e o calor do sangue enrubescendo a face, foi quando depois de um daqueles copos de leite, senti aquela vontade insuportável de cagar. Era criança ainda. Sei que corri para o banheiro que ficava ao lado da sala de aula, tinham dois, masculino e feminino, e para meu sufoco, encontrei-os ambos fechados, em uso. Bati, pedi, implorei, chorei, e quieto caguei. Caguei em mim mesmo, nas calças, nas pernas, no corpo. Caguei nas risadas dos colegas, na cara da professora, que não sabia se me limpava ou se me expulsava da sala. Caguei no choro doído e sentido de criança abandonada, ali no canto, só, triste, fedido e cagado. Que vergonha! Foi legal.

Graças a Deus nunca me chamaram de cagão.

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