Por Carlos Giordano Jr.

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domingo, 18 de dezembro de 2011

História de Pescador

Por Carlos Giordano Jr.

Se dissesse que meu pai era dado às grandes aventuras e pescarias, estaria mentindo, pois não tivera tido muitas oportunidades de arremessar meu caniço ao lado do meu velho. Entretanto, das poucas vezes que estivemos juntos às margens de algum rio, me lembro de um episódio que não me agrada muito recordar.

Pelo menos uma vez por ano em companhia de Seu Batista, grande amigo de meu pai, Dona Lígia, sua esposa, e Batistinha, o filho do casal, fazíamos uma grande e cansativa viagem até Guaíra, à Noroeste do Estado de São Paulo, nas vizinhanças da bonita cidade de Barretos, às margens do Rio Grande, que divide os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Lá ficávamos hospedados numa bela e romântica fazenda onde se cultivava com moderação e timidez, um pouquinho de soja, milho e café. No resto da fazenda, muito pasto, mesclados de tanto em tanto por mata nativa em forma de capoeiras, e alguns cochos espalhados na envernada, modificavam suavemente a paisagem, oferecendo ao bonito gado nelore um pouco de sal grosso para lamber.

Os postes de pau-ferro sustentavam as casinhas de “João-de-barro”, que se destacavam em meio a verdadeiros cordões amarelos formados pela imensa quantidade de canários da terra que pousavam nos fios de força, querendo oferecer-me a poética impressão de estarem presenteando a gigantesca abóbada azul do céu com uma fina e delicada corrente de ouro.

Atravessando algumas glebas da fazenda, havia um ribeirão de águas cristalinas, onde depois de represada, a água, já com mais força, era desviada do seu curso natural, e convidada a empurrar uma envelhecida roda d’água que, movendo um enferrujado pistão, levava para cima água limpa para abastecer a sede da fazenda e dar conta do trato da bezerrada. Parte dessa mesma água, era ainda conduzida por um duto, até ser lançada no interior de um cocho esculpido num enorme tronco que, com o peso da água, fazia movimentar, do lado oposto, um bonito pilão, que ao se erguer, espantava uma nuvem de pequenas borboletas brancas e amarelas que encantavam o lugar.

Na casa, o fogão de lenha defumava o local, servindo-nos verdadeiros banquetes, e também, acabava sendo utilizado como mecanismo de aquecimento da água do chuveiro, instalado estrategicamente no banheiro, atrás da cozinha. O fogão estava aceso a qualquer hora do dia, e meu pai estava encostado nele várias horas por dia, preparando ora uma galinha ao molho pardo, ora uma fritada de rãs, ora uma deliciosa canja, e até mesmo um torresminho de panceta pururuca era frito na banha do suíno. Numa manhã foi a vez de um carneiro que, coitado, morreu gritando feito criança nova, não gosto nem de lembrar. E, não fosse só isso, um turco que estava lá naquela manhã, tirando das vísceras do animal ainda quentes, o fígado, que com umas gotas de limão e sal comeu-o cru, ali na frente de toda a criançada que curiosa assistia a matança.

Faltava o peixe. Ah, o peixe!

Onde estava o peixe?

Depois de muita insistência, preparamos as varas, linhadas, anzóis, chumbadas, fomos tirar minhoca na horta para iscas e, lista de conselhos úteis a mão, dados por minha mãe, chapéu na cabeça e pé na estrada, eu, meu irmão, o Cí, e meu pai.

Caminhamos por cerca de hora e meia até chegarmos à beira do imponente e perigoso rio. Meu pai, com muita cautela, escolheu, à sombra, o melhor lugar no barranco para a pescaria.

- Silêncio, agora. Não batam o pé no barranco, senão o peixe vai embora! Era o que dizia.

Preparou as varas para os filhos, e para ele duas, uma fincada no chão e a outra na mão. Ali, ficamos por alguns minutos, até que comecei a me irritar com uma terrível coceira no pirulito. E, como segurar o caniço quieto com uma mão, se a outra não parava de coçar?

Tomei bronca do meu velho!

- Sossega, saco, senão não vai pegar nada.
- Não dá, pai. Puta coceira no pinto.
- Veja o que é então e fique quieto.

Tirei a calça e a cueca e mirando para o membro já vermelho, encontrei não um, mas três desgraçados carrapatos sorvendo o melhor do meu sangue na minha segunda cabeça.
- Caramba pai, tinha três carrapatos no meu pinto. Tá louco, meu!

E, ele tranqüilo respondeu do seu jeito bem italiano:
- Já tirou? Então cale a boca. Não faça mais barulho senão nem carrapato pega mais.

Senti que ele já estava de saco cheio da pescaria.

Silêncio...
E, nenhuma fisgada depois... Meu irmão:
- Pai, posso subir naquele galho?
- Cê não tá vendo que é perigoso?
- Sabe o que é pai? De lá, fica mais perto da água.

O galho saia de um Ingá no barranco e se arremessava em direção ao meio do rio. Quase um verdadeiro trampolim!

- Deixa pai? Insistia ele...
- Cê vai cair... Olha a correnteza como é forte.
Meu pai nadava, segundo ele mesmo, como um machado sem cabo e, eu já arriscava umas braçadas, mas, só pra mim. Pra dois ainda não dava.

- Me deixa subir, pai. Garanto que eu não caio.
- Ai, se sua mãe souber, me mata.
- Eu subo devagarinho...
- Olha lá em moleque, veja lá o que vai fazer...

Eu, sem condições de expressar minha opinião, ainda com a coceira me incomodando, imaginava meu irmão caindo dali e o perereco que ia dar para tirá-lo da água.
Pescaria suspensa, pelo barulho e pela cara feia do meu pai, aguardando a escalada de Cí no Ingá...

- Fran (como meu pai o chamava), cuidado para não escorregar.
- Chá-pra-mim, pai. Eu não sou burro!

Iniciada novamente a pescaria, caniço a mão, minhoca no anzol, Cí na árvore com cara de vencedor, e água por baixo correndo... Preparou a isca, ensaiou o arremesso e, TCHIGUUUMM!!!

Não acreditei naquilo que via. Fran de roupa, sapato, chapéu e caniço na mão, tinha caído no rio. Puta susto. Sumiu na água barrenta e apareceu branco de susto a uns cinco metros rio abaixo, apavorado.
Meu pai, estendendo a vara em direção a ele, deu um grito:

- Segura a vara aí filho, segura, vai!

Fran pegou no caniço, quase na ponta, mal dava para segurar e quase, quase e quase meu pai, escorregando no barranco molhado, vai junto com ele pra água. Segurei na cinta do meu pai, como se adiantasse alguma coisa, pois eu tinha uns oito a nove anos, e com meu peso, pouco poderia fazer, mas puxei, puxei com toda a força do mundo, e Jesus novamente devia estar do meu lado segurando na minha cintura, pois com a força e a vontade de Deus saímos todos salvos dali.

Nunca mais pescamos com meu pai.
Nunca mais Fran subiu num Ingá.
Nunca contamos isso pra minha mãe.
Nunca vou poder esquecer...

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