Por Carlos Giordano Jr.

Divirta-se com Artigos, Crônicas, Poesias e Poemas, Gastronomia e Administração.
Direitos autorais reservados

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Levando pau

Por Carlos Giordano Jr.

A idade ia passando, e a vontade de crescer era grande. Aos 9 anos aprendi a dirigir. O professor, meu pai, era muito bravo, não permitia erros. E, de fato errar no volante significa acidente e acidente é sinônimo de morte. Cruz credo!

A DKW 67 tinha 3 marchas e a alavanca do câmbio era localizada ao lado direito do volante, oposto à seta. Com motor de dois cilindros, era necessário colocar óleo misturado com a gasolina para lubrificar os pistões, o que fazia resultar da combustão uma grande fumaceira na descarga. O motor funcionava em alta rotação, portanto bastava encostar o pé no acelerador e o giro ia aumentando devagar mas sem parar, até que se tirasse o pé de medo de explodir. Para sair engatava-se a primeira marcha, e tinha que soltar o pé da embreagem bem devagar senão o carro desembestava a cantar pneu ou a apagar o motor por falta de força.

Dei muitas voltas no quarteirão, me borrando de medo, mas sem que meu pai soubesse. Coitado!

Aos Domingos antes da macarronada, tirávamos o carro para fora da garagem e então com muito carinho, tentávamos transformá-lo num carro novo. Lavando, consertando, costurando os bancos e os tapetes rasgados, tentando matar as baratas que o habitavam, polindo e escovando, passávamos horas nos divertindo. E, depois aquela voltinha na quadra. Que legal. Meu pai nunca deixava, mas de pouco adiantava.

A sensação que se tinha era a de poder dirigir o mundo. As crianças do bairro se espantavam ao me verem dirigindo a máquina, e quando podia, saia com meu pai em curtas viagens que me permitiam treinar sempre mais minhas habilidades no volante.
Depois da DKW, veio outra e outra e outra, até comprar uma Fissori que era o modelo de luxo da DKW, branca na lata, com teto de vinil preto, painel e volante de jacarandá e bancos de couro vermelhos. Ô fissura danada por aquele carro. Só quando a Volkswagen comprou a fábrica da DKW mandando-a para a Argentina, despertou no velho o interesse em mudar de marca. Comprou uma Variant azul calcinha, depois um fusca com “vidros bolha”, um Opala SS cor de abóbora, e um lindo dia apareceu em casa com um Gordini 1969 nos dando de presente para irmos à escola. Sem carteira de habilitação. Que pai irresponsável.

Reformamos o Gordini, tratamos dele como fosse uma Ferrari. Ficou lindo. Até que uma noite, meu irmão saiu para um passeio vestindo sua camisa de Voil tradicional, e calça de Tergal, calçando seu sapato de cromo alemão, bico fino e guiando a nossa máquina, escorregou na água da chuva da Rua Boa Morte e bateu num Corcel. Meu pai tacou fogo no tomóve. Ficamos a pé.

O sonho de todo moleque é sem dúvida atingir a maioridade, e tirar a carteira de habilitação. Ser livre. E o meu também foi o mesmo.

Já tinha bastante experiência quando chegou minha vez. Haviam nove anos que sabia dirigir e, ao completar a maioridade em Outubro de 1979, me mandei numa auto-escola querendo passar por cima de todas as leis para obter minha licença. Eu era o bom no volante!

No final do ano, minha família se preparava para passar as férias no litoral, e o velho pai havia prometido que eu iria dirigindo, como presente pela conquista da habilitação. Porém, quis o destino que, no dia marcado para o exame de percurso e baliza eu, muito confiante e experiente nem me preocupasse…

Às sete da matina, em frente a Fábrica da Boys, era o primeiro da fila, e aguardava ansioso o Delegado chegar. Fiz a baliza de olhos fechados! Bingo.

- No percurso então é que vou dar um show…(pensava alto o piloto)

Entrei na Brasília junto com o Delegado, cumprimentei-o dando a partida no motor. Ele disse:

- Pronto, podemos ir.

- Certo, doutor.

Desci a ladeira e ao chegar na esquina com a Av. Beira Rio, a 80m do ponto de partida, pisei na embreagem e no freio e…Putaqueupariu, morreu o motor. Disfarcei, com cara de bosta. Dei a partida. Motor gelado, não pegou. Dei de novo. Saco. De novo…Pegou! Seu doutor ordenou:

- Vira aí e pode voltar.
- Mas, doutor, o motor estava gelado. O senhor mesmo viu…
- Pode voltar.

Estava encerrada ali minha oportunidade de ser livre, de ir e vir, de dirigir sem medo de ir preso. E, como a Delegacia de Trânsito entraria em férias coletivas, somente depois de Fevereiro do outro ano é que teríamos novo exame.

Passei o maior vexame com meu Pai e meu irmão.
Liberdade não se tem, se conquista..

Nenhum comentário: