Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Na fazenda do Vavate

Por Carlos Giordano Jr.

Seria insuportável para qualquer mortal viver sem gozar aquelas merecidas férias de verão ao lado dos pais, irmãos, primos e parentes na fazenda do Tio Vavate em Itú, lá no bairro do Apotrebú, às margens da rodovia Castelo Branco. Lugar alto, bonito, verde, rico e poético. Inspirava sonhos carregados de desejos terrivelmente ecológicos de vida silvestre, campestre, natural, caipira.

Os preparativos para a viagem nos deixavam deliciosamente excitados. Tudo era motivo de risos e brincadeiras. Meu pai se orgulhava de poder nos oferecer esse grande prazer, ficava inchado, contente, feliz por nos ver felizes.

Partíamos ainda na calada da madrugada. O garnisé da vizinha já nos fazia imaginar o que viria pela frente. Cí, meu irmão, na maioria das vezes, era o último a acordar. Eu e meu pai nem sequer passávamos pelo sono e quando o velho despertador soava, aí sim é que começava a sonhar, só que acordado, no rumo da ilusão de criança sonhadora.

A viagem era calma a bordo do espaçoso DKW, cujas portas se abriam para a frente, como se estivessem nos recebendo com braços abertos, para nos levar ao destino com muita segurança, tendo no volante a patola de Seu Jordão. A expectativa de chegarmos ao destino era tão grande que não percebíamos as horas passando. Saíamos de Piracicaba rumo à Tietê. Passando por dentro da cidade, comprávamos cequilinhos de coco na padaria dos Schincariol, próximo ao Cemitério. Saíamos na direção de Porto Feliz e só parávamos no garapeiro, lugar encantado que além do caldo de cana geladinho, servia-nos com uma deliciosa rapadura, paçoquinha de amendoim e o tradicional melado de cana, que guardávamos com muito cuidado para comermos.
Agora tudo valia, menos desobedecer os pais, senão … fim de férias.

Enquanto sonhava acordado, sentado sobre a imensa rocha que solitária se erguia no alto da colina, podia avistar ao longe, ainda que raramente, alguns caminhões que timidamente inauguravam a rodovia Castelo Branco lá embaixo, levando cargas de otimismo e progresso, da Capital, rumo ao promissor interior do Estado.
A vida na fazenda do Vavate era simples, mas para a garotada, tinha tudo a oferecer, principalmente a comida, feita no fogão à lenha, com cheiro de fumaça. A rede na varanda para balançar, o leite da vaca ainda quente na caneca com açúcar às 4 da manhã, o orvalho gelado na envernada, o frescor da relva umedecendo a pele, o cântico da sabia laranjeira no terreiro, e o galo impondo o seu respeito a toda a vizinhança, fazia florescer o encanto rústico da estampa limpa da vida que sempre sonharia ter. Andávamos de carroça, a pé, a cavalo, por toda a vizinhança, puxando as rédeas do “Branco” e do “Prata”, galopando emoções, sensações e muitas alegrias.

Uma certa vez, Jesus me segurou com as mãos. Passeávamos tranqüilamente , eu como sempre com o “Branco”, Mário meu primo a bordo do “Prata”, quando resolvemos disputar um derby. No páreo, os dois melhores jockeys do pedaço, e aí …- Foi dada a largada! Disparei na frente, mandando o reio. Mário lá na poeira, desesperado. A linha de chegada era em frente a uma pequena capelinha que repousava pacata no caminho da fazenda. E, tome reio. Passou a capela. Alegre vencedor. Mãos no freio, e cadê do cavalo desgraçado parar. Puta pau! O bicho não queria saber de prosa. Só pedaço de casco que voava. O rabo dele na horizontal com o vento, o meu na vertical, cortando prego. Ô cagaço danado, achei que ia me danar. Puxei a rédea com toda a força, quase arranco a queixada do eqüino desembestado, e nada… Aí, lembrei-me de rezar, fiz o sinal da cruz com o joelho batendo na cara e, não é que o cavalo resolve parar. Não acreditei que seria possível, mas foi.

Ao lado do cafezal havia uma venda. Aquelas de beira de estrada, que cheira fumo em corda, tem pinga com carqueijo na prateleira da parede, maria mole com mosquito no balcão, sardinha salgada na lata, lingüiça pendurada no pau e caipira na porta contando “causo” e cuspindo no chão. E, era lá que íamos comprar o que faltava para o almoço. Voltávamos lambendo Qui-suco pela estrada. No caminho, estórias de saci pererê, lobisomem, drácula, mula sem cabeça, era isso que rolava nas prosas da molecada. E, na curva lá do fim da descida, foi que numa tarde, quase à noitinha, ouvimos um terrível e apavorante gemido que vinha do alto do enorme eucalipto às nossas costas. Não teve um que não tivesse largado o chinelo pra pegar depois. Mas tarde vim saber que era o rangido dos galhos da imensa árvore que se esfregavam ao sabor do vento.

Lá morava o Pedro, cara feio, esquisito, bituca de paia na boca, paiêro véio na cabeça e invariavelmente os pés descalços no chão. O cara tinha um solado natural que fazia inveja à fábrica de pneus, nunca usara sapatos, só no enterro do Vavate, que não conseguira acompanhar pois não teria podido andar de dor nos pés.

Me lembro da cara do “Mineiro”, grande figura, trabalhava na ordenha na mangueira da fazenda, tinha uma só calça com dois remendos de outra cor bem na bunda, para lembrar-nos sempre do que acontecera com ele. Naquela época, meu tio não tinha o costume de mochar as novilhas, e o gado era chifrudo como o Demo. E, tinha uma vaca daquelas desgraçadas de brava, que pra sossegá-la, Baiano sentava o reio na bicha, mandava pernadas, socos, torcia-lhe o rabo até a malvada se aquietar. Um dia, no vacilo do Mineiro, ela cravou-lhe os cornos, que vararam seu intestino, mandando-o para além da cerca, longe do currau e no caminho quase se encontrou com Deus. Não morreu, remendou a calça e fez amizade com a vaca.

Marcos Conceição, meu primo, filho do Vavate, casado com Neninha, irmã de meu pai. Era metido a peão, montava em touro. Eu o admirava por isso. Ele sabia até laçar, coisa muito difícil. Hoje, faz programa de pescaria na TV. Um belo dia montou num bezerro. O animal não gostou, mandando-lhe para cima, e no final do movimento parabolóide, depositou-o com a cara enterrada na merda. E, sabe, achei-o depois da cena com uma grande cara de bosta. Só risadas!

Várias estórias poderia contar de Bea, a sagüi, Zêla, a bugio, Mário Antônio, o fumeiro, Zeca, o louco, Bernardo, Bernadete e Matheus que já está descansando ao lado do Pai. Enfim, dos primos que fizeram minha infância mais feliz. Porém, o tempo passa e a vida alcança estágios cada vez mais distantes das épocas em que o sorriso não saía do rosto, o prazer de viver tinha a força de um orgasmo, e a vontade de ser alguém nos fazia fortes em desejo, repletos de esperança, mas incompletos ainda na carne e no pensamento.

Não consigo dimensionar os limites da fazenda, mas me lembro que tinha como vizinho o sítio de Tio Edú, casado com Ondina, outra irmã de meu pai. Era um sítio pequeno, com uma casinha pendurada no topo da montanha, e uma bela vista à frente. Do outro lado, as terras do poderoso Zé Miséria, que mais tarde iria trocar as terras de Vavate, aproximadamente uns 300 alqueires paulistas por uma caminhonete Rural Willis cor de abóbora ano 1966, e um punhado de promessas. Vavate morreu disso.

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