Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

No Sud Mennucci tudo era encanto

Por Carlos Giordano Jr.

No primeiro ano primário, coube a Dna. Terezinha do Canto Kraide a tarefa gratificante de me alfabetizar. Não me lembro das técnicas utilizadas, só recordo que ficava sentado no chão com minha mãe, brincando de montar sílabas com várias letrinhas desenhadas em cartolina, posteriormente recortadas em quadradinhos como um quebra cabeças.

Naquela época as formas de condução da turma dentro da sala de aula era um pouco mais rígida por parte da autoridade dos docentes, e consistia em impor o respeito aos mais velhos e também aos colegas, para só assim poder ser respeitado.

Algumas formas de castigo podiam ser empregadas, tais como a desmoralização total do engraçadinho perante o grupo, feita pela professora, colocando-o na carteira dos burros, defronte aos colegas e ao lado da mesa do mestre por um dia, uma semana, às vezes por um mês. Muitas vezes o castigo consistia em ficar de frente para o quadro negro em pé por algumas horas; ausência de intervalo (chamado de recreio ), quando o castigado ficava na sala de aula estudando tabuada no seu horário de descanso; e o pior de todos os castigos era ir falar com a diretora da escola, Dona Diva, que poderia punir com advertência escrita para os pais, suspensão temporária ou mesmo a expulsão da escola.

No segundo ano, Dona Doraírtes Vitti, esposa do grande escritor piracicabano Lino Vitti, era a professora, e se dedicou a nos ingressar no mundo maravilhoso dos números, da matemática. Introduziu-nos noções básicas de situação geográfica, história do descobrimento e educação moral e cívica.

No terceiro ano, Dona Maria Bononi complementou e fortaleceu as raízes da alfabetização nos exercitando com muita didática. E, no quarto ano primário, Dona Lourdes Bonilha iniciaria uma proposta de educação mais abrangente, nos preparando para ingressar-nos no curso ginasial.

Da quinta a oitava série do ginásio, já tivemos que mudar de prédio. Do anexo ao Instituto, passamos efetivamente a freqüentar todo o prédio com aproximadamente 10.000 m2 de construção. Podíamos ir à Biblioteca; Começamos a participar de aulas de ciências no laboratório do Prof. Vail; Tínhamos aulas de desenho na respectiva sala com o Prof. Costa; Também podíamos participar das aulas de música no anfiteatro com o Prof. Gimenes.

No intervalo, a freqüência já era mista com os mais velhos, alunos do colegial, que disputavam entre cotoveladas e chutes uma vaga no balcão da cantina do “Vardema” e da Dona Cida, para comprar uma paçoquinha ou uma coxinha sem varizes para enganar o estômago até a hora do almoço.
O horário das aulas era das 7h às 11h50’ e às vezes até 12h40’.

Muito tempo ainda depois do horário de aula, sem almoçar ia ter aulas de contrabaixo (rabecão ou viola de gamba) na Escola de Música de Piracicaba, escola que gozava de muito prestígio nos meios culturais de Piracicaba, cujos diretores eram o Maestro Ernest Mahle e sua esposa Dona Cidinha Mahle. E, como o curso era gratuito, só havia esse horário de aulas, e se eu quisesse aprender um pouquinho tinha que me submeter a esse desconforto.
Na Escola de Música também vivi momentos muito agradáveis junto de bons amigos. E, por alguns anos freqüentei o coral da escola, com o qual fizemos muitas apresentações.

Fui suspenso uma única vez em todo meu período acadêmico. Na sétima série, tivemos numa manhã a ausência de uma professora de francês. Como seu substituto também não estava disponível, ficaríamos sem aula durante os 50 minutos normais. Depois dessa “janela” era o horário do intervalo, então eu e meu grande amigo Quinho (Marcos Tadeu Ferraz de Arruda) que hoje é praticamente mais um irmão do que amigo, resolvemos pular a janela da sala de aula, que dava para o pátio do colégio, porém para nossa infelicidade, eu pulei e caí quase em cima do Seu Oscar, que era o servente da escola, e o Quinho muito animal, pulou atras e caiu em cima de nós dois. Saímos correndo feito loucos, sem sabermos para onde íamos, até alcançarmos a quadra feminina, onde acontecia ali, naquele momento, uma aula de educação física. Sentamos ali até Seu Oscar aparecer e nos levar com caras de bunda para a diretoria da escola.

Estava naquele dia Dona Iracema, professora de Educação Moral e Cívica como diretora substituta. Depois do sermão, fomos suspensos por três dias. Mas, em um desses três dias, iria ocorrer uma prova de Inglês, prova essa decisiva para fechar o semestre e consequentemente o ano letivo.

Quinho, mais esperto do que eu, no dia da prova, compareceu, recebeu a nota e ficou feliz da vida. Ninguém percebeu…só eu.

Quando soube, fui ter com Dona Iracema, cobrando-lhe a possibilidade de também fazer a prova numa segunda alternativa, informando-lhe do acontecido com meu amigo. Além dela não me permitir fazer a prova, ainda cancelou a do Quinho que recebeu zero, ficou de recuperação, não pode viajar com os pais nas férias, e ficou quase um ano sem falar comigo. Hoje, depois de duas décadas, se toco nesse assunto, ele só espuma um pouco no canto da boca, mas não pensa mais em me matar.

As emoções foram tantas nessa escola que, muito embora tenha passado por outras, quando me recordo do Sud, percebo que ele foi responsável por cristalizar em minha memória a imagem mais bonita que se poderia ter de um “Castelo Gigante” da educação, berço da cultura, sustentáculo da moral e do civismo, exemplo de didática, pai de poetas, músicos, pensadores, políticos, engenheiros, professores, médicos, advogados, vagabundos e desempregados.

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