Por Carlos Giordano Jr.

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Noel no reveillon

Por Carlos Giordano Jr

Os anos iam passando, meus dentes já haviam caído, e outros vieram no lugar. Tudo mudava, a cidade, a escola, as pessoas, mas havia uma coisa que nunca iria mudar, pelo menos para nós.

Maria da Conceição, conhecida popularmente como Dona Mara, minha mãe, contava suas primaveras em 08 de Dezembro, dia de Nossa Senhora. Normalmente a partir daí, é que o velho Seu Jordão embalava em ritmo de festas o seio de nossa humilde família até o Natal. Era festa só. Muita alegria.

Festejávamos o Natal como muitas famílias mais abastadas não o faziam. Meu pai sabia como fazer festa. Coitado. Queria e fazia o impossível para agradar-nos. Gostava de reunir a família, incluindo-se aí parentes próximos e distantes. Os amigos que sempre foram tratados como verdadeiros irmãos, eram sempre lembrados e insistentemente convidados a nos fazerem companhia.

A mesa era posta com muita fartura uma semana antes do Natal, e lá ficava sendo resposta com muito gosto vezes por dia. Acho que Seu Jordão tinha “caderneta” na banca do Mercadão, pois era incrível o exagero de comida, de frutas, de nozes, castanhas, avelãs, passas, tâmaras, vinhos, panetones, carneiros e leitoas, que muito embora não fossem totalmente consumidos, seriam responsáveis pela satisfação pessoal do velho, em poder observar aquela mesa maravilhosamente farta, sendo apreciada pela família e pelos amigos, que entravam e saiam de nossa casa sem a menor cerimônia, pois invariavelmente se sentiam em suas próprias casas.

Nessa época do ano, a porta da frente da casa de meus pais estaria sempre aberta para acolher a todos, até mesmo os mais pobres que conseguiam, bastando pedir, fazer uma gostosa refeição sentados à porta. Meu pai tinha um enorme coração. Nada era dele. Tudo era de todos. Não tinha nada, e assim conseguia ter tudo.

Num desse Natais, confesso que forçamos a barra. Eu e Cí pedimos aproximadamente 728 dias sem cansarmos, uma bicicleta para gozarmos a infância com mais graça e conforto. E, olha que era uma só que almejávamos ganhar. Seu Jordão desconsolado, com a impossibilidade financeira de fazê-lo, tascou umas Brahmas na cabeça, passou a mão na veloz perua DKW, e mandou um terrível crediário goela a dentro na extinta Casa Edson, trazendo duas “Caloi dente-de-leite” ano 1971 azuis, com pneus aro 22 brancos. Coisa linda. Espetáculo. Tinham bagageiro, guidons altos, e bancos em duas cores. Vieram até com uma sirene movida a pilhas instalada no pára-lamas dianteiro da magrela. Que luxo!

- Tira a mão daí, sapo! Sua mão tá suja, meu. Não tá vendo que é nova?

Fazíamos inveja na criançada do bairro. Também, pudera, estávamos ainda na época da “Caloi berlineta” e do carrinho de rolemã (aquele do rala-bunda).

Aquele fôra um dos Natais mais felizes da minha vida.

Logo depois, a Casa Edson, impiedosa, viria buscar as bicicletas por falta de pagamento do carnê... Dona Mara salvou a pátria. Quebrando o porquinho de porcelana, recolheu o suor do cofrinho e resolveu a parada, mandando a maldita promissória assinada pro fundo do lixo. A barra pesou pro lado de Seu Jordão.

Mas, a festa sempre continuou.

Na passagem de ano, comemorávamos com aquele George Albert que ninguém gostava de beber. Só o faziam para não desagradar o anfitrião.

Algumas superstições à parte, como atravessar o ano com uma cueca nova, ou calcinha nova para as meninas, eram sempre comentadas pelos mais velhos.

Minha mãe, por exemplo, trazia sementes de romãs já secas embrulhadas num guardanapo de papel, para que as guardássemos na carteira como sinal de muita fartura.

Comer carneiro com arroz e lentilhas à moda síria na ceia do Reveillon era sinal de grande fartura e prosperidade para a família. Porém, com o passar dos anos, o índice elevadíssimo de colesterol no sangue dos parentes, viria a proibir tal manifestação eminentemente gastronômica.

Houve uma passagem de ano, acredito ser de 1972 para 1973, que estávamos em Mongaguá, litoral Sul de São Paulo, juntos com o velho Seu Batista e família, hospedados numa modesta casa do outro lado da linha férrea, à direita da Rodovia Pedro Taques que rumava para a cidade vizinha de Itanhaém.

Mongaguá era apelidada por minha mãe de “A concha”, pois dos 365 dias do ano, 360 dias choviam, 4 dias estavam nublados, e 1 dia só fazia Sol, era o dia de virmos embora para casa.

A situação financeira de Seu Jordão nesse ano, não nos permitia muito luxo na preparação da festa de Reveillon. Então, usando de muita criatividade, saímos várias noites caçando rãs para prepará-las durante o dia, no almoço, junto com uma gostosa “Papoula”, risoto típico italiano bem cozido, que era preparado por Dona Mara bem cedinho, antes de irmos à praia. Fazendo isso, sem querer, ajudávamos na economia de dinheiro, que nos favorecia, pois podíamos ficar mais dias na praia.

Para a ceia, nós crianças, não víamos muitas opções na geladeira. Então, num passeio pelo rio Mongaguá, num bote “emprestado”, que encontramos na margem, eu, Cí, e Mário Guitte, meu primo, subindo rio acima à remo, já no final da tarde, deparamos com nossa grande oportunidade de enriquecer a mesa para àquela noite. Vimos quatro ou cinco patos nadando alegres num remanso.

Vapt!

Apesar de estarem com a carne um pouco dura, de tão velhos, depois de ricamente elaborados e decorados “ao forno” por Seu Jordão, experimentamos uma grande sensação de prazer em colocarmos à mesa o produto de nossa aventura.

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