Por Carlos Giordano Jr.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Urubú na grande tela

Por Carlos Giordano Jr.

Toda manhã de Domingo, meu pai nos presenteava com “cenlão” cada um, e eu e meu mano descíamos a Rua Moraes Barros com destino certo às dez da matina na porta do famoso Politeama. Cinema bonito, espaçoso, onde curtíamos fitas memoráveis, com direito a risos e choros.

Antes da sessão comprávamos balas num bar ao lado do cinema, ainda na praça José Bonifácio onde hoje está edificado o Banco Itaú. Na esquina tinha uma pastelaria, que também servia caldo de cana à distinta freguesia que perambulava pela praça. Na outra esquina, estava o Daytona, antiga lanchonete que fôra substituída pelo atual Banco Sudameris, local perigoso, onde toda a garotada era proibida pelos pais de freqüentar, pois, ali se encontravam de tudo o que era ruim, como sanduíches com pózinho, coca-cola com bolinhas, bebidas com drogas para viciar criancinhas, e tudo o que era desconhecido pelos mais velhos absorvidos psicologicamente como negativos à boa formação moral dos filhos.

Já existia a possibilidade de flertar alguém, mesmo que remota, mas existia. Havia um repúdio em vestir calça-curta nos meninos, e nas meninas, trancinhas e maria-chiquinhas eram proibidas, pois haveriam de tornar evidentes a falta de idade para a paquera. Mesmo assim, apesar de tudo muito recatado, coroado de muita timidez, nós nos sentíamos verdadeiramente independentes, capazes, projetos insólitos de vida adulta.

A manhã de Domingo era tão esperada, que fazia da semana uma fração de hora. O filme não era o principal, mas o que valia era a possibilidade de estar lá, ao lado, ou pelo menos perto daquela garota que achávamos bonita, encantadora, graciosa, e que por ela, imaginávamos estar terrivelmente apaixonados, porém desprovidos de coragem humana para dizer-lhe isso. Amor de Platão, quanto mais longe melhor.

A primeira menina que me lembro por achá-la bonita e inatingível foi a Tânia Elizabeth. Me recordo vendo-a toda vestida de branco, com rendinhas, fitas em laço às costas, sapatinhos brancos de verniz e tiara na cabeça, ornamentando seus belos cabelos encaracolados e negros, correndo e brincando de pega-pega na escola. Nunca pude falar isso à ela, embora a tivesse visto várias vezes na sessão matinê.

As possibilidades de êxito na conquista de uma garota eram tão remotas, que nos faziam desistir antes de tentarmos alguma coisa com elas, pois os mais velhos, garotos idosos de doze, treze e até catorze anos eram os mais cobiçados pelas meninas de dez anos, e eu com nove, coitado…nem pensar. Imaginava que com o tempo haveria de chegar a minha vez, porém quando tive por poucos dias (365) os catorze anos, as garotas que me interessavam, tinham interesse pelos garotos de dezoito, e vou lhes dizer que não tive muita chance com elas, pois sempre tive cara de bebê Jonhson. Barba nunca veio na cara, nem pro bigodinho de malandro.

Existia também o cine Colonial na Rua Benjamim Constant, ao lado do Posto de Gasolina de mesmo nome. Ali, sempre tivemos mais chances com o sexo oposto, mas não com garotas, e sim com as pulgas que infestavam o local, tornando a sessão comédia, verdadeiramente hilária, piada pura, maior coceira, só gargalhadas.

Vou mais longe quando lembro do cine Paulistinha, lá na Paulista. Que inferno, já naquela época as pulgas foram comidas pelos piolhos, os chatos estavam gordos de sangue.

Um dia soltaram um urubu dentro do cinema, na hora da sessão. A ave saiu desembestada rumando à luz da tela num vôo único, ímpar e derradeiro, pois se estatelou no pano torcendo o pescoço com a porrada. Fim de sessão. Só risadas.

O cinema naquela época era bom pra surdos, mudos e até para daltônicos (alguns filmes eram mudos e em preto e branco). Só não prestava muito para cegos, a não ser na hora do intervalo ou no fim da fita na hora de ir embora. Maior barato.

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