Por Carlos Giordano Jr.

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Comendo a cadelinha

Por Carlos Giordano Jr.

Na subida da Bernardino de Campos, la no bairro Alto, em Piracicaba, é que eu comecei a enxergar o mundo do lado de fora da “famiglia”. Primeiro pela vidraça do quarto de minha mãe, que dava pra rua, onde eu e meu irmão ficávamos ansiosos aguardando Zelão, o louco, que babava, e que subia a enorme ladeira dizendo coisas que só ele conseguia entender, mexendo com as pessoas, fazendo barulho e batendo nas janelas. Eu acho que ele comia criancinhas. Puta medão! Depois, por outro ângulo, pelo quintal, onde brincávamos alegremente, sem perigos estranhos.

Tínhamos o “Aga”, um capa preta legítimo, pastor alemão, que freqüentara aulas de adestramento de cães, e então aprendera a fazer de tudo, até quando meu pai tivera perdida a lista com todos os comandos de voz que o cão fôra treinado a obedecer. Como o animal não tinha o conhecimento da língua portuguesa, Aga ficou sem serventia, só criava pulgas e comia galinhas. É, tinha galos, galinhas e pintinhos no nosso quintal. Minha mãe criava. Eu brincava. Meu pai matava. Nós todos comíamos, principalmente o cachorro.

Um dia ele mudou o cardápio e virou o herói do quarteirão.

Tenente Benedito, meu finado avô, vinha caminhando tranqüilamente, perto do bar do Branco, lá embaixo, no pé do morro, junto de sua cadelinha de estimação, quando fôra surpreendido subitamente por um tremendo cachorrão preto, com o voraz desejo de comer-lhe a cadela, e talvez, mesmo apesar de velho, ele também. Foi quando começou a gritaria, da cadela, do meu vô, e da moçadinha da rua, que devia estar dizendo:

- Pega, mata e come!

Meu pai, que segurava o Aga em frente da casa, soltou-o …

- Pega, Aga, Pega!

O cachorro preto virou sabão, o Aga herói da rua, a cadelinha debutou na redondeza, virou mocinha, e meu avô teve que mudar de ceroulas.

Tenente aposentou-se como primeiro sargento no Exército em Itú. Ganhava aquele tanto, guardava metade. Tinha dinheiro. Minha avó, “Dor Lena”, reclamava da miséria, fazia bolo de fubá com erva doce todo sábado à tarde, com intenção de reunir a família em torno da mesa.

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