Por Carlos Giordano Jr.

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Daqui para lá

Por Carlos Giordano Jr.

Mando notícias daqui para vocês que estão lá
Esse lá que demora pra chegar
Onde o quando é mais longe do que o lugar
E o lugar quase não importa mais
Afinal, no final, vamos nos encontrar
Em qualquer lugar, sei lá

A invasão que tanto lhes falei
Agora é real, a Coréia está chegando
Ainda vamos comer cachorro, filé de Dálmata
Picanha de Dobermann ou Pinscher à passarinho
Eles estão por aqui, não sei onde
Mas o jornal já os tem na coluna social

Minha barriga está linda
Cheia de gases e cerveja
Já não vejo aquele que outrora era pujante
E representava o poder do meu cajado
Agora ele se esconde de vergonha sobre o saco
Numa morte lenta e derradeira, o coitado

Meu cabelo farto, louro e reluzente
Agora reluz o brilho da sua ausência
E aqueles que teimaram em ficar
São brancos como o talco
Mas levam a marca daquilo que vivi
E bem vivi, puta que pariu se vivi

Meus filhos, são minha fortuna
Meu patrimônio, o melhor de mim, que já fiz

Filha arquiteta, brilha na vida e no amor
Filho Agrônomo, brilha no futuro que desejou
Caçulinha, adolescente que nos renova a mente
Esposa amada das bodas de prata, ainda me atura.

Minha mãe está virando pedra
Quase surda, ainda anda a cidade inteira
Desejando não envelhecer tanto quanto a vida passa
Canta no coral da Escola de Música
Vai à missa todos os dias rezar para e por nós
Cozinha todo domingo para felicidade de todos

Tenho um cachorro chamado Lampião
Um violão Di Giorgio de 1975 faltando uma corda Mi
Um Fusca 68 com pouco uso, que não uso
Um relógio Roskopf Patent que comprei do Seu Zé em tempos idos
Uma coleção de moedas antigas que na época eram novas
E uma linda aliança de comemoração das minhas bodas de prata

Disso tudo, o que levo da vida é o que vivi
Por onde fui ou por onde andei, experimentei o sabor de viver
De ser feliz e infeliz, de acertar e errar sozinho ou em grupo
De respirar o ar do sertão, da montanha e do mar
De suar o suor do trabalho dignificante e como recompensa
Amei e fui amado por Deus e por quem quis me amar

Meus amigos, são vocês, nem sei porque
Mas sobraram poucos que toleraram minha companhia
Porém, de verdade, a amizade sincera é uma escolha
Livre e sem interesses, que acontece de forma natural
Eu, quando aqui, estou aí e vocês aí, saibam que estão aqui
Dentro na minha caixa de emoções, que não cabem muitos

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