Por Carlos Giordano Jr.

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Garimpo

Por Carlos Giordano Jr

Porto Velho, RO
1987

Depois do casamento do Álvaro com a Silvana, em Araçatuba, voltamos para Porto Velho, eu e Quinho, meu fiel amigo, cheios de vontade de ficarmos ricos. A viagem pela Varig foi boa. Chegamos lá quase embriagados de tanto whisky que tomamos no avião.

Um bafo quente nos recebeu no aeroporto, mostrando-nos que não nos seria fácil acostumarmos com o clima da floresta amazônica.

No saguão, a vacina contra febre amarela é obrigatória e administrada por soldados do exército aos viajantes desavisados. Já tínhamos tomado antes de irmos pela primeira vez, mas não adiantou. Tomamos de novo, e com validade dobrada. Encontramo-nos com o primo de Quinho que nos vendeu a draga, e fomos direto pro garimpo.

A fofoca (termo usado para o conjunto de dragas no rio) estava perto da cachoeira do Teotônio, à cerca de trinta minutos de barco, rio acima. A draga, logo batizada de Dragão, era grande e aparentemente boa, precisando de alguns reparos. Fomos nos instalando meio precariamente, e logo percebemos realmente onde estávamos.

A selva amazônica é realmente linda, apaixonante, intrigante e fantástica em sua exuberância. O verde é delicioso. A quantidade de pássaros é absurda. Jacarés eram avistados às margens com certa freqüência. A mansidão do rio Madeira nos tranqüilizava das histórias horripilantes que ouvimos do garimpo. E, à tardinha, a quantidade de mosquitos que vêm nos sorver o melhor de nossos fluídos é inimaginável, chegamos a ficar realmente pretos de tantos que nos picavam juntos. Lembro de passar Autan no rosto, na roupa, na botina, e nada adiantava. Por sorte esse período se dava por aproximadamente meia hora, sempre ao cair da tarde, mas somente quando estávamos na margem do rio. Já lá no meio, nenhum mosquito nos incomodava, só o barulho do MWM 6 cilindros, turbo-diesel, em terceira marcha, totalmente acelerado. Só o desligávamos para trocarmos o óleo. 24 horas por dia, 30 dias por mês ligado.

A adaptação durou 45 dias.

Quinho foi embora e eu fiquei aguardando sua volta para poder ir em seguida. Já levou algum dinheiro pra família fazer o rancho (termo usado no garimpo para compra de alimento).

Aprendi que sede é coisa inventada pelo diabo. Tomei água do rio Madeira pra não morrer. Comi macaco, anta, mutum, tambaqui na brasa só com sal grosso aos montes. Pesquei de linhada. Cacei jacaré, e fiz churrasco com sua calda. Hoje até me envergonho disso, mas na época foi muito divertido e extremamente saboroso. Farinha de cascalho era o básico do pessoal, que não almoçava sem ela, e eu não conseguia sequer mastiga-la. Feijão com arroz e o macarrão de mistura por cima, era o prato de luxo.

- Deus me livre disso. Santa Mãe de Deus me tire daqui! Quero pizza…

Com o tempo, arranjei uma cozinheira que nos fazia o rango com certa dificuldade, face aos desencantos da cozinha de selva. Fui lhe ensinando alguma coisa do Sul, e paulatinamente consegui mudar o cardápio. Não foi fácil, pois os costumes eram terríveis. Até óleo diesel vi meu funcionário beber dizendo que o fazia ficar “doidão”. Claro, devia passar mal e ficar atordoado com tanta ânsia de vômito.

Meu corpo começou a coçar a certa altura. Fui até Porto Velho e tentei comprar algum antialérgico. Nada adiantou. Os dias se passaram e a coceira aumentou. Quase louco, percebi que, com o contato constante com o diesel, minha pele reagia dessa insuportável forma. Eu tomava banho com a água do rio, de balde, e sempre pegava água próxima à draga, coletando invariavelmente água misturada com óleo diesel e óleo de motor. Resolvi logo o problema coletando na frente da draga contra a correnteza.

O uso indiscriminado de mercúrio muito nos assustou. Com o uso do cadinho a perda era pouca, porém era comum ver garimpeiros queimando com maçarico a céu aberto o amalgama resultante da mistura do ouro com o mercúrio. Este último se volatiliza, e ao transformar-se em gás de mercúrio, era imediatamente aspirado pelo usuário desavisado, cujas narinas, cabelos e sobrancelhas chegavam a ficarem brancas. Coisa de louco. Esse mercúrio em forma de gás, seguia para a atmosfera e se precipitava com a chuva na calha do rio. Os fitos plânctons se alimentavam ali e em seguida eram comidos pelos pequeninos peixes que por sua vez alimentariam os maiores, que seriam pescados pelos mesmos garimpeiros para consumo. Metal pesado nas juntas, sem possibilidade de eliminação pelo organismo. Para sempre. Dores nas articulações, músculos e morte certa.

Vi alguns horrores lá.

Alguns garimpeiros chegaram a se enroscar no cabo de aço da nossa poita, descendo o rio já em estado de decomposição.

Vi a morte esquartejada no barranco por vingança.

Vi também horríveis acidentes no rio com as voadeiras, que ceifaram vidas de amigos meus.

A cachoeira do Teotônio tinha a largura de cerca de trezentos metros, e era impiedosa. Matou vários que dela se aproximaram na tentativa de garimpar na sua porta.

A draga tinha quatro funcionários que ficavam com 5% do ouro cada um. Trabalhavam em turnos durante as 24 horas do dia no comando hidráulico da lança que escareava o leito rochoso do rio, aspirando o cascalho para cima, jogando-o sobre duas caixas grandes de extração que eram forradas com um carpete que retinha o vil metal. De tanto em tanto, retirávamos os carpetes e apurávamos o produto com o uso do mercúrio.

A cozinheira recebia 20g de ouro por mês e mais a caixinha, que era um pequeno carpete que ficava nos dois ralos da draga, recebendo o produto que retornava lavado para o rio. Às vezes coletava mais 50g no mês. Era um bom dinheiro.

O consumo de diesel era absurdo e o preço cobrado pelo Posto flutuante era a peso de ouro. Aliás pagávamos tudo com ouro. Todos os comerciantes tinham no balcão uma balancinha de precisão para a cobrança do devido.

Existiam supermercados flutuantes, que acompanhavam as fofocas rio acima ou abaixo. Ali tinha de tudo, também a preço de ouro. Tinha cervejinha Cerpa gelada na varanda do flutuante, com música regional pra alegrar o entardecer. Pagar cerca de US$ 10 por uma delas era coisa de garimpeiro desesperado.

Existiam também os “Bregas”, flutuantes da luz vermelha, que promoviam bailes no começo da noite, atraindo os garimpeiros que chegavam a pagar em ouro por um pouco de carinho. Vendedores de óculos de grau passavam de tanto em tanto corrigindo a visão dos coitados. Barbeiros, “tira-dentes”, oficinas mecânicas, oficinas de solda e motores de polpa eram comuns flutuando pelo rio. Havia realmente uma cidade flutuante ali no Madeira. No total eram aproximadamente 5.000 dragas a extraírem ouro entre Porto Velho e Abunã.

Às vezes nos aventurávamos subindo o rio a procura de um bom lugar pra trabalharmos sozinhos, longe da fofoca. Mas logo, as outras vinham atrás apoitando ao lado da nossa e nos atrapalhando a movimentação pendular da lança.

Uma vez subimos o rio durante 6 longos dias empurrando a draga com um motor 55 HP Johnson a toda velocidade durante 12 horas por dia. Só parávamos à noitinha para dormirmos próximos do barranco. Foram cerca de 170 km rio acima, quase na divisa com a Bolívia, num lugar chamado Caldeirão. Lugar do ouro bom. Fofoca grande. No caminho devíamos ultrapassar a cachoeira do Morrinho. Essa com certeza foi a maior aventura da minha vida. Subimos aproximadamente seis dragas pela cachoeira.

Acho que não conseguirei descrever a sensação de subir um morro de água de aproximadamente cinco metros de altura por cinqüenta de comprimento e trezentos metros de largura. Amarramos um cabo de aço de cerca de duzentos metros numa imensa árvore acima da cachoeira para servir de guia. Esse cabo era ligado no motor hidráulico da poita da nossa draga que tracionava com toda força para nos puxar para cima. Seis a sete motores de polpa Evinrude, Johnson ou Yamaha, todos de 55 a 60 HP a todo gás empurrando a bicha e a guiando pelo canal longe das pedras. A draga chegava a ser engolida pela correnteza por alguns segundos, mas no final conseguimos subir todas.

O ouro no Caldeirão era engodo.

Difícil foi descer a maldita cachoeira uma semana depois. Diarréia total.

Quinho pegou malária, Vivax, da mais branda e difícil de curar. A Falsiparun é mais fácil de curar, porém muito mais perigosa por levar ao óbito rapidamente.

A família reclamava a nossa ausência.

Acovardamos-nos mediante os acontecimentos no garimpo.

O ouro veio na medida para não perdermos o dinheiro investido.

Vendemos o Dragão pro primo de Quinho e nunca tivemos o prazer de ver a cor do dinheiro.

Tudo bem. Valeu, só não sabe quem não foi.

Quase perdi o pé num prego enferrujado.

Conseguimos voltar.

Nem morri.

Garimpo, agora só na praia à procura de Rolex.

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