Por Carlos Giordano Jr.

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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Cartinha para meu neto Pedro

Por Nonno Giordano

Quando soube pelo seu pai que você ia chegar
A emoção foi tanta que não consegui me conter
Pois meu amor havia se multiplicado
Na batida do seu coração
E hoje, enquanto te espero nascer
Escrevo-te para o dia que souber ler

Sou seu avô, filho de Carlos Giordano
Nascido e criado na companhia de Jesus
Branquelo de olhos verdes, meu cabelo era ouro
Alegria de Dona Mara, minha querida mãe
Neto de Vó Nena e Vô Dito, Vó Zelinda e Vovô Matteo
Dessa mistura de sangue é que virá o seu sorriso

Sua Tetravó Helena Salvatori, filha de Nicola Salvatori e Thereza Bars,
Filha de italianos nascida na Fazenda Floresta em Cabreúva em 29 de Julho de 1904,
Faleceu bem do meu lado, em 22 de Novembro de 1995 em Piracicaba,
Conheceu e casou com Tenente Benedito Francisco Pereira, filho de Sinhá Justina Silveira,
Cabloco bom, nascido em Itú, no bairro do Apotrebu, donde ganhou seu jeito de matuto
Em 11 de Abril de 1906, ele nasceu e quando eu fiz 30 anos, morreu e deixou tristeza

Tiveram sua bisavó Mara em 08 de Dezembro de 1932, nascida em Itú
E mais Leila, Carlos, Fernando, Helena e Maria que receberam vida e educação militar
Vô Dito era bravo, sovina, mas muito amoroso comigo, e Vó Nena, de olhos verdes,
Era doce, mansa e exageradamente protetora de sua prole.
Esperava no portão para me dar uma almondega, sempre escondido do meu avô,
Bem na hora que eu passava ali na volta da escola.

Do outro lado, seu bisavô Carlos Giordano, nasceu em 11 de Fevereiro de 1926 em Amparo,
Filho da minha Vó Zelinda Fava, nascida em Mantova no ano de 1889, dia 5 de Abril,
Veio de navio, no colo, fugindo da fome e da miséria na Itália
Casou-se com o jovem e bonito Matteo Giordano nascido em Foggia, Itália
Na pequenina comuna de Monte Sant’Angelo no dia 18 de Fevereiro de 1886
Essa “famiglia” gerou Ondina, Carmelita (Lito), Leonor (Lolô), Angelina (Nininha) e Toninho.

Tudo era alegria para Carlos quando conheceu Mara em Itú
Ele era bancário e ela estudante de pedagogia
Vovô Matteo era filho de Giovanni Giordano e Maria Giuseppa Di Iasio
Seu pai ficou rico fazendo ternos e comprou uma bonita fazenda de café em Amparo
Com a crise da bolsa em 1929, perdeu tudo e virou comerciante de café
Morreu em Itararé num acidente de caminhão, tragédia em 10 de Novembro de 1951

Depois disso, “Seo” Jordão, como era conhecido
Conquistou o coração da difícil Mara, casando-se em Itú
Vieram para Piracicaba para trabalhar na Usina Costa Pinto
Ele como contador e ela como professora
Em 22 de Novembro de 1959 nasceu Tio Chico
E em 09 de Outubro de 1961, tiveram seu avô

Felicidade total. Foram morar na subida da Rua Bernardino de Campos,
Onde tive a experiência de ser criança feliz, com meu irmão e meu cachorro Aga
Andei de carrinho de pedal e de rolimã, sempre esperando meu avô chegar
Ele me ensinaria muitas coisas que quero ensinar você fazer
Me contando histórias, ensinava a ter disciplina, obediência e ser corajoso
Meu pai trabalhava e me dava exemplo, minha mãe me corrigia e me dava amor

Meu pai, formoso, bondoso, tirava a camisa pra dar pros’ôtros,
Quando as tinha, pois era mamãe quem as costurava.
Gostava de folia, cozinhava muito bem, um pouco carregado no óleo.
Adorava chegar em casa com o carro cheio de comida
Morreu de infarto, mas feliz, em 09 de Janeiro de 1982.
Não tivesse sido assim, estaria feliz de estar vivo entre nós.

Meu pai, naquela época, porque houveram outras épocas,
Era feliz proprietário de um restaurante
Conhecido nos meios políticos e sociais de Piracicaba, chamava-se “A Baiana”,
Ficava situado à Rua São José, ao lado do Teatro de mesmo nome,
Local de cultura, de artes de grandes festas de debutantes e de formaturas.
A Baiana era muito bem frequentada.

Meu pai tinha muitos amigos.
Fazia de tudo o que podia para agradá-los.
Um dia vendeu fiado.
Perdeu os amigos e fechou o restaurante.
Então Pedrinho, vovô vai te falar:
Nunca venda fiado.

Minha mãe, a tal costureira, deu-me tudo, deu-me a vida.
Ensinou-me tudo o que sabia, menos costurar. Ainda bem.
Era linda, parecida com aquela mulher chamada de Amélia,
Mulher de verdade, mulher no sentido mais amplo da palavra.
Mãe como Maria, a de Deus.
Amo muito minha mãe, avó do papai e sua bisavó.

Eu adorava assistir televisão, só que era preto e branco
Vivia brincando na rua, empinando pipa, jogando bolinha de gude
Nadava na enxurrada quando chovia e minha mãe se zangava
Meu irmão brigava comigo, eu chorava e minha mãe me protegia
Meu pai era muito engraçado, vivia rindo da vida e nos fazia felizes
Mesmo com pouco dinheiro, tínhamos mais do que precisávamos

Ia a missa todos os domingos na Igreja do Bom Jesus
Lá fui batizado e crismado. Era bom conhecer o Cristo Salvador
Mas quando eu pecava, ficava com muito medo do castigo
Depois tinha que confessar para o padre, pedindo perdão
Fui no oratório do Dom Bosco, aprender disciplina
Cantar, brincar, rezar e agradecer a Deus por minha vida

Meu pai nos levava sempre em viagens de férias
Conheci o mar em Itanhaém, Mongaguá e Santos
Conheci Itu, na casa da minha Vó Zelinda, que fazia molhos maravilhosos
Deixando sua casa com cheiro de alho, louro, azeite e tomates.
Na fazenda do meu tio Vavate aprendi a montar cavalos
Aprendi a tirar leite, caçar rã, caçar passarinho e pegar bicho de pé

A vida na fazenda do Vavate era simples, mas deliciosa
Principalmente a comida, feita no fogão à lenha, com cheiro de fumaça.
A rede na varanda para balançar, o leite da vaca ainda quente na caneca de ferro
O orvalho gelado na invernada, o cântico do sabiá laranjeira no terreiro,
E o galo impondo o seu respeito a toda vizinhança, fazia florescer
O encanto rústico da estampa limpa da vida que sempre sonharia ter.

Sabe, Pedrinho, eu nunca suspeitei da existência de Deus.
Algumas vezes eu estive bem pertinho Dele, acho até que já O vi.
Então eu desejo que você também O conheça e viva perto Dele e tenha fé
Fé é crer, acreditar naquilo que não se vê, portanto quem precisa ver para crer...não tem fé.
Sem fé não se vive, não se alcança aquilo que se deseja, não se permite
Mas, o amor que vem de Deus permite sermos felizes.

Das heranças a mais querida que recebi do meu pai, foi sem dúvida, o gosto pela cozinha.
E, isso graças a tradição de festejarmos sempre o Domingo.
Dia em que Nonnas e Mammas, perdidas no tempo, desde cedinho,
Estavam no pé do fogão, como Vó Zelinda e Vó Nena
Enquanto isso, na rua, o Babbo se encarregava de providenciar o pão, o gorgonzola, e o vinho.
Tudo sempre foi festa em nossa casa, agora é a vez do seu pai fazer o mesmo.

À mesa, sempre nos reunimos para promovermos a amizade e o amor
Fortalecermos nossos elos, trocarmos nossas experiências,
Recebermos orientações dos pais, e finalmente para apurarmos nosso paladar,
Degustando o banquete, o vinho, e a felicidade de sermos uma família
Espero que seu pai continue fazendo isso para sempre
Depois dele, será você, Pedro, filho do meu filho, filho do meu amor

Depois que eu cresci, papai tinha morrido, eu conheci sua avó
Estudante de Psicologia lá na Capital. Menina linda, simpática, inteligente, de boa família.
Já estava apaixonado. Convidei-a para irmos no Clube Coronel Barbosa, no baile de Carnaval,
Dançamos e pulamos a noite toda, e nem um beijinho sequer consegui roubar-lhe.
Menina difícil...Fiquei mais apaixonado.
Foi nesse dia que acho que você começou a nascer, Pedrinho.

Vovó Lucia é filha do bisavô Nelson e da bisa Lourdes,
Ela nasceu em 19 de Agosto de 1960, então bem mais velha do que eu
Morou em Piracicaba até se mudar para São Paulo com os pais
Seu bisavô era contador e teve um escritório em que a vovó trabalhou
Eram simples e tiveram mais duas filhas, Tia Ligia e Tia Lourdinha
Todas casadas e felizes, com seus filhos Rodrigo e Lucas, Isabel e Beatriz

À sua avó resolvi doar todo o meu ser, do meu coração à minha razão,
Do meu presente ao meu futuro. Passei a não mais existir. Somos um só.
Fiz muitas poesias para Lúcia. Tirei os pés do chão, perdi a base.
Dediquei a ela tudo o que de melhor havia em meu coração
E ele derreteu-se em mil pedaços quando do nascimento dos meus filhos.
Frutos de um amor divino, fizeram esse coração, hoje, bater no peito de cada um deles.

Depois do casamento, de volta para casa, nos tornamos uma família.
Tinha realizado meu sonho. Não me lembro de como foi nosso primeiro dia em casa.
Mas, lembro-me do nosso apartamento, lá na Vila Madalena, onde sua tia Marília nasceu
Em 02 de Abril de 1986. Tinha dois quartos e era alugado de uma cliente do meu sogro.
Ali ficamos até 1987, quando partimos de volta para Piracicaba com seu pai na barriga da vovó
Em 30 de Abril de 1987, seu pai nasceu sem avisar, antes do tempo, só que em São Paulo

Nossa família viveu em Piracicaba crescendo feliz
Em 01 de Agosto de 1994 sua titia Nathália nasceu depois de tanto a desejarmos
Vovô no trabalho ou na cozinha, vovó nos cuidados dos filhos
Tivemos momentos de muita dificuldade, mas sempre estivemos juntos
Agora seu pai resolveu crescer e se casar com sua linda mamãe Jackeline
E de presente para todos nós eles resolveram se amar

Desse amor, nascerá você, Pedrinho
Seu nome é Pedro, nome forte, que quer dizer rocha ou rochedo
Saiba que Jesus disse ao seu Apóstolo Pedro:
Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
Então querido netinho, eu vou desejar que você seja sempre forte como seu pai
Receba e espalhe amor por onde passar e leve felicidade por todos os seus caminhos

Estamos muito ansiosos para recebermos você em nossos braços
Especialmente o Nonno Giordano que escreveu essa cartinha
Enquanto espero você crescer na barriga da mamãe
Quero lhe dizer agora que no seu futuro também estarei lhe esperando
Para lhe dar meu amor, meu carinho, meu colo e minha proteção
Se o papai não tiver tempo, eu lhe ensinarei andar de bicicleta

E lá na frente, quando eu for velhinho e você ficar grandão
Não se esqueça de toda essa linda história de amor

Te amo!
Nonno Giordano

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