Por Carlos Giordano Jr.

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domingo, 20 de novembro de 2016

Sertanejando

Por Carlos Giordano

Nesta parte de mim que me questiona
Sei que o que sei não serve para resposta
E sigo cavalgando uma interrogação estúpida
Pelo amanhã que nunca chega, e dói

Nesta manhã que do ontem restou o fardo
Carrego somente o sonho de acreditar 
Naquilo que não é sem nunca ter sido
Curando minh’alma desse corpo cansado

O carcará grita de fome com o bucho vazio
Avisando que ele ainda vive e tem fé
Mas que será daquele cujo ouvido lateja
De medo daquilo que não pode ver?

Tem chuva na caatinga e o canto ecoa
Nas Graças de Deus, nóis é de morrer...
Nóis vive e nóis morre é nas Graças de Deus
Numa ladainha sem fim nessa vida finita

Tristes mãos calejadas de esperança
Trabalham com dor de enxada na terra pilada
Rachada de tanto sofrer onde o pó castiga 
O suor que emana da experiência de viver

Venha vida, venha e permita viver
Esse povo sofrido que chora de amor
Num angu que engasga e mata de dor
Triste fim de quem nunca foi aquilo que quis 

Sementes que teimam, sementes que tentam
Com impulso do Criador, mostrar seu valor
Se lançam na vida sem nunca saber
Que o sangue da terra feito água não virá

Esse gado surrado com o couro curtido
No Sol que abrasa, queima e maltrata
Seca o úbere numa esperança de salvação
Da cria que nem sabe por que nasceu

Nesse vai e vem de querência do meu País
Essa carne dolorida que alimenta o que não fez
Não sofreu, não produziu, nem ao menos quis
E se acha digno merecedor dessa matriz

Quanta iniquidade, sou obrigado ver
Se ao menos a cegueira me calasse
Poderia viver na ignorância sem sofrer
Bebendo da fonte limpa sem nada querer

A dor do sertanejo é diferente 
A lágrima é seca, mas quando desce 
Na face cansada, rasga de dor a pele enrugada
Expondo as feridas daquilo que viveu

Pobre povo, pobre Brasil
Na caixa de Pandora, habita a esperança
Esperança num mundo sem dor
Sem o cancro aniquilante da desgraça

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